Finalmente, recebo o pacote. “Nova Reunião”, 23 livros de poesia de Drummond em um único volume. Alguns eu já tinha, mas queria porque queria e queria muito essa edição com a obra quase completa: minha biblioteca personalizada. Pesou na mala quando voltei para a Flórida, mas valeu cada grama. Começo a ler devagar, página por página, um poema de cada vez. Avanço algumas páginas, recomeço. Releio as poesias favoritas, respiro fundo, sigo em frente. Alcanço “A vida passada a limpa”, publicado em 1958. Me detenho algumas noites, releio.

Esse livro que eu já conheci, mas agora parece que é outro, os poemas mudaram de cor, estão mais intensos, mais profundos, mexeu ainda mais comigo. Devia ser adolescente quando li pela primeira vez, mas agora parece diferente. Será que o poeta voltou para a Terra e reescreveu alguns versos mais aguçados, mais certos? Ou fui eu quem mudou? Imagino Carlos flutuando, terno e gravata, sério, asas brancas, distribuindo petelecos nas orelhas dos leitores brasileiros, pra ver se essa gente começa a ler mais poesia e aprender a se emocionar com ela. Vamos trabalhando. Sigo a leitura: “ Então, amor, escolhes o disfarce ”. E esse livro número 9 passa a ser meu favorito. Mas a vida continua, e começo a desbravar “Lição de Coisas”. Enfraqueço. Volto páginas e relatório “A Rosa do Povo”. Quem disse que a reprodução sempre deixa a poesia chata? Em “Resíduo”, o poeta escreve “ De tudo fica um pouco ” mais de onze vezes — com algumas variações — e para mim é um dos poemas mais belos da língua portuguesa, de fazer Camões derreter na sua inveja lusitana.

“A Rosa do Povo” foi publicada em 1945, há quase 80 anos, e ainda emociona.
Continue o percurso. Faço uma curva e volto ainda mais no tempo, para 1934: “ Amor, a quanto me obrigas ”. São quase 90 anos que separam a escrita do poeta e a minha leitura, mas parece que ele está do meu lado, derramando sensibilidade e rimas na minha solidão.

Nessa viagem marítima de palavras e sentimentos, os leitores são barcos, o poeta desenhou o mapa e adivinhou sua trajetória há décadas, mas hoje somos órfãos à deriva. Dói pensar que nunca mais teremos novas poesias de Carlos Drummond de Andrade. O conjunto de sua obra é extenso; porém, mesmo as coisas eternas existem em número limitado. Tenho medo de chegar até a última página do livro. Quando esse dia acontecer, refaça a viagem e caminho atento e desprovida pelos caminhos aéreos de Minas, visite cada verso com outros olhos e outros corações. Sim, “corações” no plural, porque a poesia de Drummond não cabe em um só.