Durante algum tempo, trabalhei lado a lado com uma colombiana superlinda e superbacana; somos amigas até hoje. Um dia, me contou que, além do espanhol e inglês, também falava árabe, porque morou alguns anos no Líbano. Árabe! Fiquei surpresa, afinal, era a minha primeira amiga que falava árabe. Eu disse que aquele era seu superpoder, uma habilidade que ninguém imagina que você tem, mas que pode ser muito útil. Aliás, acho que nenhuma habilidade é desnecessária, tudo o que sabemos pode ser usado um dia, inclusive para nos salvar de uma situação de vida ou morte. Aprender nunca é demais.
Voltando aos superpoderes, acho que todo mundo tem um. Tenho outra amiga superdoce, supersimpática, que sempre acreditei ser boazinha até demais. Até que um dia me contou que era faixa preta em caratê. Faixa preta! E pensar que quase arrumei briga com ela! Ainda bem que fiquei na minha, senão teria levado uns bons sopapos. Já estive em situações de saia-justa e salto alto, e o que me salvou do perrengue foi respirar fundo e levar para o bom humor. A paciência já me ajudou muitas vezes. Inclusive, já me ensinou que alguns dos problemas que lidamos todos os dias simplesmente não existem. É só mudar a perspectiva, o modo de pensar, esperar as coisas acontecerem e o problema se resolve sozinho. Nem sempre isso acontece, é claro; aí você tem que usar outros dos seus poderes para enfrentar o dragão, como o bom senso, a inteligência e a diplomacia.
Tenho uma amiga que consegue fazer quatro, cinco ou dez coisas ao mesmo tempo. Nós, mulheres, somos multitarefa, mas ela exagera. O superpoder que ela tem de resolver tantos problemas ao mesmo tempo acho que nunca vou ter. Tenho outra amiga que consegue manter a sua casa em uma organização impecável todo o tempo, de colocar a Marie Kondo no chão. Já me cansei de tanto tentar organizar minha bagunça; agora espero que ela amadureça e evolua para outro nível espiritual. Uma outra consegue cuidar de cinco filhos – todos meninos – e nunca perder a elegância, a serenidade e o sorriso. É só olhar por aí que encontramos pessoas comuns fazendo coisas admiráveis.
Também existem pessoas com “superdefeitos”, aqueles de deixar nosso cabelo em pé. Mas procuro não criar expectativas, prefiro passear pela vida como um passarinho, voando distante das crenças e preconceitos. É melhor ser surpreendida pelas boas atitudes dos outros que esperar o pior de cada um. Algumas vezes encontro pessoas agindo de maneira irracional, até conversar com elas e entender que aquele comportamento é o melhor que elas podem oferecer naquele momento. Até uma situação superabsurda tem uma explicação por trás, e sempre se pode aprender algo novo. Acho que o principal poder das pessoas é a capacidade de aprender com cada situação, com cada cliente chato que aparece no fim do expediente, o borracheiro que trocou o pneu errado ou a vizinha do terceiro andar, que ouve moda de viola de madrugada, no último volume. A realidade ensina, molda e faz você ser quem é. Não é sempre que sai um dragão de dentro das pessoas. Às vezes aparece um ogro; outras, uma andorinha.