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Esta estória vem do tempo em que o pai do meu pai ainda era um jovem alegre e festeiro, lá no interior. Foi na festa do casamento da própria Salete que aconteceu o acontecido. O pai da moça, fazendeiro abonado, convidou todos os colonos – a maioria italiana ou descendentes, como o meu avô, para celebrar o enlace. Mais do que comemorar a boda, todos estavam ansiosos para encher a pança com a farta comida que seria servida. Os animados comensais já estavam com os olhos e estômagos inebriados com o aroma da carne assada – dizia-se que o pai da donzela mandou abater o maior boi da fazenda – e o barulho das panelas revirando na cozinha, talvez misturando o molho de tomate na massa recém saída do fogão. Mas… o tempo passava e nada do almoço aparecer na mesa. Talvez por um capricho menor das cozinheiras, ou sei lá o que. Antes que a impaciência tomasse conta dos alegres convivas, meu avô teve a oportuna idéia de, quem sabe, se comemorassem em alta voz e com bastante entusiasmo a felicidade da anfitriona, a comida seria servida mais rapidamente, para o contentamento da multidão. Ele gritava: “Viva a Salete!” e todos respondiam “Viva!”. E foi um tal de viva a Salete prá cá e viva a Salete prá lá, que levantou os ânimos dos famintos convidados, e a fome latente foi deixada de lado. Se o plano funcionou, e o almoço foi servido imediatamente, eu não sei, não me alcançou o tempo para perguntar ao velho. Tampouco sei se a moça teve um feliz matrimônio. Mas até hoje, na família, nos orgulhamos de carregar a alegria e o entusiasmo do patriarca, e ainda comemoramos a felicidade daquela noiva, e a nossa também. Quando a família está reunida e a comida não vem, quando nada de bom acontece, quando estamos desanimados ou por qualquer inglório motivo, alguém grita: “Viva a Salete!”, imediatamente vem a lembrança aquele senhor bonachão, e os desimportantes e passageiros percalços da vida são esquecidos. É este o estado de espírito que dá o colorido ao blog e me anima a escrever. Agora que já sabe da estória, o leitor também pode compartilhar desse entusiasmo: Viva!
© Cartas Voadoras – Todos os direitos reservados. | Autora Raquel Gonçalves.