Boteco, pra que te quero?

November 29, 2025

Boteco, pra que te quero?

November 29, 2025

Boteco, pra que te quero?

Boteco, pra que te quero?

Nos Estados Unidos têm quase de tudo. Muita coisa bacana, moderna, confortável e estilosa. “Quase.” É verdade que aqui tem algumas amenidades que não são muito comuns no Brasil. Aqui costuma ser mais seguro, e tudo parece funcionar. Mas o Brasil também tem algumas vantagens que o Tio Sam nem conhece. Uma das coisas que mais sinto falta, e que estamos acostumados a ter no Brasil, é o tradicional “boteco”. Aqui também tem bares e restaurantes, é claro, mas costumam ser lugares mais caros e formais, cheios de pompa e circunstância. Estou falando do bar da sua rua, onde encontra salgadinho e pão de queijo, aquele freezer de picolé, a mesinha na calçada… Isso aqui não tem. O bar da esquina (nem precisa estar necessariamente na esquina) deveria ser considerado um patrimônio brasileiro. E não precisa desembolsar grandes quantias para resolver seus problemas, ali tudo é acessível. Está com fome e quer comer alguma coisa rápida? O bar resolve o problema com coxinha e quibe. Está com calor? No bar tem refrigerante e sorvete. Quer sentar-se, tomar um guaraná, comer um salgadinho, olhar o movimento da rua e pensar na vida? Veio para o lugar certo. Fez amizade com o dono e virou o ponto de encontro da turma? Então aqui é o seu lugar. 

O boteco brasileiro é palco de amizade e interação social, o tão precioso tempo de desligar-se da rotina, tomar uma cerveja (ou quatro) e bater papo com o colega de trabalho depois do expediente. Aonde os rapazes vão depois do jogo de futebol, garotos e garotas podem paquerar e serem paqueradas. Também têm os “barzinhos”, uma versão mais sofisticada dos botecos do bairro. Pode ter música ao vivo, pode ter pagode ou roda de samba. Pode ter feijoada nas quartas e nos sábados. Pode ter de tudo. Casais namorando, esposas nervosas procurando os maridos, universitário matando aula ou funcionário matando o trabalho. O boteco não devia ser considerado local de “gente desocupada”, mas aonde vamos nos “desocupar” das incertezas da vida. Ou apenas para nos dedicar ao ócio improdutivo, sem nenhuma pretensão. Afinal, nem tudo na vida precisa ser consequente ou intencional. Desfrutar o momento, ou uma boa conversa-fiada, também deveria ser prioridade de vez em quando. A grande atração do boteco é a sua informalidade. Não precisa fazer reserva ou vestir-se a rigor. O boteco é tão democrático quanto o carrinho de cachorro-quente ou a barraca da praia. Boteco que se preza também é previsível, sempre tem cerveja, guaraná e salgadinho. A simpatia do dono (ou a falta dela). Esses são os requisitos básicos para ser considerado um boteco decente. Também pode ter mosquito e copo sujo, faz parte da experiência e aventura humana na terra civilizada. Não precisa ter mesinha na calçada, mas se não tiver Coca-Cola… Boteco também tem que contrariar as expectativas, pois situa-se no vasto terreno da contradição. Todo boteco que se preza tem alguma coisa faltando. Acabou a Antárctica ou a Fanta. A azeitona está no fim ou o torresmo está em falta. Também faz parte algum nível de frustração, alguma coisa para reclamar. Apesar de ser um dos seus lugares favoritos, tem que concordar com o Luís Fernando Veríssimo de que não existe um bar perfeito. Nenhum boteco chega até o paraíso, mas alguns passam bem perto.

Boteco, pra que te quero?