Às vezes, encontramos algumas palavras em outros idiomas que são tão perfeitas, tão específicas, que o português parece obsoleto. O Chile, país onde vivi muy contenta por siete años, usa com frequência uma palavra que atinge o estado emocional a que se refere com uma precisão digna de relógio suíço: aburrido. Significa estar entediado, sem ter nada para fazer; ou algo muito chato, sem graça. Quando as crianças hispânicas estão entediadas, dizem: “Mami, estoy aburrido…”. Ou, quando não querem fazer algo, dizem: “¡Esto es muy aburrido!”. Saímos do Chile há dez anos, mas usamos essa palavra seguidamente, misturada com o português, o inglês e até com a língua do pê. Acho que nenhuma palavra, em nenhum idioma, traz tanta carga de enfado ou tédio quanto essa. Estar aburrido não tem nada a ver com burro, ou desprovido de inteligência, mas tem a ver com “falta de interesse ou motivação”. A tradução mais próxima seria “aborrecimento”, mas acho aburrido mais bacana, mais “xuxu beleza”. Recomendo que todos os brasileiros incorporem essa palavra no seu vocabulário — não vão se arrepender.
A outra palavra que é, praticamente, “tiro na mosca”, é “cash”, que traduzo por “dinheiro vivo”. Nesse caso, trocamos duas palavras que somam doze letras por uma palavrinha só, com quatro letrinhas. Cash é supimpa! Quando as crianças me pedem dinheiro para comprar sorvete ou alguma bugiganga baratinha, elas não pedem “money”, porque é muito inespecífico. Elas querem aquelas notas soltas de um dólar ou aquelas moedas de 25 centavos (o quarter) que quase toda mãe tem, perdidas dentro da bolsa ou esquecidas no porta-luvas do carro. Elas não perguntam se você tem “money”, porque esse “money” está no banco, no financiamento da
casa, no limite do cartão de crédito — ou não está em lugar nenhum (pode acontecer). Elas querem o dinheiro vivo, aquele que existe fisicamente, está disponível e ninguém tira de você só elas mesmas. Então, perguntam se você tem cash. Daí você tem até a opção de dizer “não”, no velho e bom português, mas, como quase toda mãe é pamonha, acaba esvaziando o porta-moedas para atender ao pedido do pimpolho.
A terceira palavra que incorporamos é cookie, mas, aqui, necessitamos uma detalhada explanação acadêmica. Os paulistas traduzem por “bolacha” e os cariocas entendem como “biscoito”. Como tenho tripla cidadania (brasileira, paulista e caipira), é bolacha, mesmo. Essa palavra se refere a uma enorme variedade de guloseimas à base de farinha e açúcar. Pode ser aquela do tipo maisena, pode ser do tipo waffle, pode ser aquela que a avó faz, pode ser a primeira na hora do recreio ou a última do pacote. Já “biscoito”, na minha opinião, se refere a algo mais requintado, diferenciado, provavelmente feito com manteiga francesa e sabor a baunilha em favas. Acho até meio arrogante. Claro que há a exceção para os “biscoitos de polvilho”. Essa iguaria é indispensável em qualquer viagem, seja de carro ou ônibus, para uma distância igual ou superior a 39,9 quilômetros, para ser exata. O guaraná na garrafinha “caçulinha” é opcional.
Voltando ao cookie, os americanos estão se referindo a um tipo muito específico de guloseima: aquele redondinho e achatado que pode ter gotas de chocolate ou pedacinhos de frutas. Os biscoitos salgados (olha aí, eu sendo arrogante no meu linguajar), eles chamam de crackers. Então, quando uma criança quer comer algo cheio de açúcar, ela pede cookie, mas quando quer seu equivalente salgado, diz crackers. Acho uma coisa bacana, essa especificidade. No português, colocamos adjetivos: bolacha doce, bolacha salgada, bolacha de chocolate, e assim por diante. O inglês nasceu meio juntinho com o alemão, um idioma no auge da precisão que uma língua pode ter (segundo a lenda, Wittgenstein dizia que só era possível filosofar em alemão — ora essa!). Então, quando uma criança americana pede um cookie, a boa mãe americana abre o armário e entrega exatamente o que ela está pedindo, sem dar maiores esclarecimentos. Mas, quando uma criança brasileira pede uma bolacha, a mãe brasileira ainda tem que perguntar: “Doce ou salgada?”. Ela responde: “doce”. Daí a boa mulher responde: “Só depois do almoço”.