Neste mundo quase infinito de viagens e despedidas, partidas e chegadas, nômades ou peregrinos procuram acolhimento, uma casa onde não se sintam sós. Mas o mundo não é feito apenas de coisas concretas. A escrita constrói um universo habitável de palavras, memórias, ideias e sentimentos, onde talvez mais do que no endereço pertencemos. Esse espaço convida outras pessoas, que também viveram experiências semelhantes, e logo se cria uma comunidade.
É assim que a escritora Raquel Gonçalves vem construindo sua pátria e fazendo novos amigos: através da literatura. “Quando as pessoas leem o que escrevo e se identificam, as histórias nos conectam e sinto que não estou sozinha. A literatura constrói um país. Lar é onde estão os meus livros: onde puder ler e escrever me sentirei em casa. Acho que todo expatriado deve se sentir um pouco ‘perdido’, mas a leitura de autores brasileiros, muitas vezes expatriados como eu, me encontra e permite criar raízes, não importa onde estiver.”
Raquel saiu do Brasil em 2002. Casada, teve dois filhos enquanto morava em Doral, no condado de Miami-Dade, mas os meninos foram criados em Santiago do Chile, onde a família viveu por 7 anos. De regresso à Flórida, mas agora na tranquila Weston, viu seus meninos terminarem o high school e partirem para o college. E a literatura? “Continua minha melhor companheira, me ajuda a reparar as saudades, as distâncias, as faltas ou as sobras da vida.”
A escrita sempre fez parte do seu mundo, seja como cronista ou acadêmica, ela é formada em Psicologia, mestra em Educação e especialista em Neuropsicologia Infantil.
“Comecei a escrever crônicas do cotidiano quando tive depressão pós-parto, a literatura me salvou, daí não parei mais. Aprender a viver com alegria e bom humor deveria ser ensinado nas escolas, acho fundamental viver com leveza e o riso ajuda a resolver muitos problemas.”
Raquel participou da segunda edição da coletânea “Brava Gente Brasileira em Terras Estrangeiras”, em 2005; também escreveu para jornais e sites. Muita coisa cabe na sua escrita: comportamento, saúde mental, humor, relacionamentos, consumo, viagens… A poesia também faz parte: em 2022 lançou o livro “Canteiros” na 34 Bienal em São Paulo: “Se a crônica aponta o olhar para fora, para a realidade exterior, a poesia é olhar para dentro, interpretando, esmiuçando, reescrevendo essa coisa difícil de entender, e que chamamos coração.”
Desde 2025, suas crônicas têm endereço f ixo no site Cartas Voadoras: “É onde permito derramar minhas ideias e memórias, vividas ou imaginadas, onde aprendo a viver nesse país que vem me acolhendo há mais de 17 anos.” E o Brasil? “Está bem aqui, onde a saudade encontra o lápis e papel. Ler e escrever não só me aproximam do meu país, reforçando minha identidade brasileira, mas também me faz viajar dentro de mim mesma. Acho que somos todos imigrantes, de uma maneira ou outra: todos abandonamos um tempo ou lugar, seja a infância, a casa, o país, a família, trabalhos ou relacionamentos, e partimos rumo ao desconhecido. Se nossa bagagem é a memória, escrever significa arrumar as malas.”