— Eu vou pintar o cabelo de roxo.
A mãe olha para a filha adolescente, meio incrédula.
— Roxo? Por quê?
— Está na moda, é para exprimir melhor minha personalidade, minha unicidade como ser humano etc.
— Filha, deixa como está, seu cabelo é tão bonito…
— Não, já decidi.
No dia seguinte, ela aparece — adivinha! — com o cabelo roxo. A mãe não gostou muito, mas pensou o mesmo que pensam 99% das mães de adolescentes: “É só uma fase, logo passa”. Um mês depois, a fase não passou e veio a novidade: piercing no umbigo.
— Para que isso, minha filha? Ninguém na nossa família tem isso.
— Eu não sou todo mundo.
A mãe suspira fundo. O que será que vem agora? Vieram quatro brincos, quatro em cada orelha. Até que não eram feios: pequenos, bonitinhos, mas tinha que ser quatro?
— Não é muito brinco, Maria Lúcia?
— Ih, lá vem ela de novo… Eu só quero me expressar melhor, quero ser diferente de todo mundo, e daí?
A mãe pensa que essa fase já estava na hora de passar. Não passou. E ainda quis fazer uma tatuagem.
— Bem grande, cobrindo o braço inteiro. Um unicórnio azul, cercado de rosas e estrelas, como uma referência ao infinito do universo, entende?
— Não! Chega de história! Agora, essa? Vou falar com o seu pai.
— Ele também tem tatuagem…
— Só tem uma pequena, nas costas, ninguém vê.
— Mas a minha tatoo todo mundo vai ver, e ninguém vai ter igual — e foi para o estúdio.
Quando chegou, encontrou todos os unicórnios, dragões, tribais, borboletas etc. Rapazes e garotas cobrindo os braços, costas e pernas, uma panaceia de motivos coloridos, símbolos e tudo mais que a imaginação cria e o artista coloca na pele. Tinha até alguém com o Brad Pitt e a Angelina Jolie ocupando as costas inteiras, um pouco decepcionado, é verdade, mas até isso tinha.
Desanimada, volta para casa. A mãe pergunta:
— Ué?! Cadê o unicórnio?!
— Resolvi não fazer tatuagem, assim vou ser diferente de todo mundo — filosofou.