Beija-Flor

Janeiro 16, 2026

Beija-Flor

Janeiro 16, 2026

Quando comecei a aprender inglês na escola, poucas décadas atrás, a professora explicava algo assim: existe um objeto que todas as pessoas do mundo conhecem, mas que em um idioma é chamado de “porta”, por exemplo, e em outro é chamado de “door”. Todos têm a mesma opinião e conhecimento do objeto, só muda a palavra para designá-lo. Desta forma, aprender um outro idioma é conhecer como aquele objeto, que existe no mundo inteiro e que estamos todos de acordo do que se trata, é chamado. Simples assim.

Demorou muito tempo para entender que isso está muito distante da realidade, ou seja, a coisa não é assim. Até a coisa mesmo, o objeto, não existe em todas as culturas e idiomas. Por exemplo, tente explicar para uma garota da Mongólia o que é um biquíni fio-dental. Ela não apenas não teria a menor ideia do que estamos falando, simplesmente porque na Mongólia não existe biquíni fio-dental (eu acho), como também, depois de saber do que se trata, não acho que veria esse objeto da mesma forma simpática que uma garota (e garoto) carioca. Aprendi que todas as coisas do mundo são compreendidas de uma maneira distinta em cada cultura e em cada época. Até algo universal, como a morte, significa algo totalmente diferente por um devoto católico e um espírita; por alguém que acaba de se curar de uma doença grave e alguém que perdeu uma pessoa querida; por uma enfermeira plantonista ou um agente funerário. A mesma e universal morte também tem entendimentos diferentes e pessoais. E o que materializa essas diferenças e particularidades de cada coisa são as palavras que usamos para denominá-las e explicá-las (eu acho).

Os  especialistas,  de  forma  inteligente,  explicam  isso  com  os  conceitos de significante e significado. O significante é importante para possibilitar a comunicação entre as pessoas e tem que ser o mesmo para todos do mesmo idioma. Por exemplo, quando pronuncio a palavra “porta”, é importante que o leitor pense em “porta” e não em “passarinho”, senão a gente não vai se entender, certo? É como aquela parte pequena de um iceberg, que está flutuando e todos podem ver. Porém, “porta” para mim é uma coisa, e outra para um carpinteiro, por exemplo. Quando penso em “porta”, penso em algo retangular que abre e fecha. O carpinteiro pensa não apenas na coisa retangular que abre e fecha, mas também no material de que é feita e todo o processo de fabricação, as ferramentas utilizadas, quanto custa etc. Quando eu falo a palavra “passarinho” para um biólogo, ele sabe do que estou falando, mas as muitas ideias que ele tem para esta coisa — “passarinho” — são bem diferentes das que um engenheiro agrimensor poderia ter. Este é o significado da palavra, a imensa parte do iceberg que está submersa; é algo pessoal e tem a ver com sentimentos, experiências etc. É aqui que a coisa se complica. Ou melhora. É este entendimento diferente do que seja porta, passarinho ou qualquer outra coisa que me faz achar tão interessante aprender outros idiomas. Tenho inúmeros exemplos. Quando chamo meu filho de “gatinho”, qualquer brasileiro reconhece o tom carinhoso que estou imprimindo na palavra, do quanto quero bem o meu menino. Já um argentino irá estranhar uma mãe chamar o filho de “gato”, que para eles, além do conhecido felino, também significa algo parecido como “gatuno, oportunista, malandro”. Minhas amigas argentinas sempre me chamaram de “gorda”, e nunca gostei, porque para mim esta palavra refere-se a sobrepeso. Até que entendi que este “gorda”, em espanhol e no costume do país, pode ser traduzido por “fofa, gracinha” (isso sim, eu gosto).

Um exemplo que considero clássico é o da “borboleta”, em português, e da “mariposa”, em espanhol. Para nós, “borboleta” é aquele inseto colorido e gracioso que visita as flores iluminadas pela luz dourada do dia, e a “mariposa” é um inseto cinza, desengonçado, gordo, que passeia pelo escuro da noite procurando sei lá o que. Nós, lusófonos, vemos dois insetos distintos e temos dois nomes para marcar bem esta diferença. Porém, em espanhol, existe apenas uma palavra, “mariposa”, para os dois insetos. Isso me deixa indignada. Como podem os chilenos e argentinos chamarem de “mariposa” a duas criaturas totalmente diferentes na forma, na cor e nas intenções? Quando pronunciamos “borboleta”, acentuamos o colorido, o brilho e a beleza de um inseto, que o outro, monocromaticamente cinza, não tem. O fato de a língua portuguesa ter duas palavras para designar duas criaturas diferentes parece que acentua a diferença e a particularidade de cada inseto. É como dizer: “Não se esqueça, ‘borboleta’ é diferente de ‘mariposa’, tá certo?” Os brasileiros respondem: “Tá”, e os chilenos e argentinos perguntam: “¿Cómo es eso? No es lo mismo?” ou “Como assim?! Não é a mesma coisa?!”.

Quando aprendemos este significado escondido, que só quem conhece o idioma sabe, aprendemos uma nova dimensão de um objeto já conhecido, mas que tem alguma característica até então invisível. Ou seja, aprender um outro idioma significa enriquecer o nosso conhecimento do mundo, e aprender a ver as mesmas coisas de uma maneira diferente. Este é meu exemplo favorito. “Beija-flor” em inglês significa “hummingbird”, que vou traduzir como “passarinho que zumbe”. Quando aprendi o que significa este “humming”, me dei conta de algo que nunca tinha prestado atenção. Porque este animalzinho bate as asas tão rápido, ele acaba fazendo um barulhinho de zumbido. Então, se antes a minha ideia de beija-flor era de um passarinho pequeno, frágil, delicado, que beija as flores enquanto suga o néctar, mas que também faz um suave zumbido, eu comecei a ver esta pequena ave de uma maneira diferente

— mais ampla — do que via antes. O fato mais gracioso aconteceu quando eu estava ensinando português à minha aluna canadense. Quando ela entendeu que “hummingbird” é “beija-flor”, ficou impressionada, com um brilho nos olhos que apenas vejo em quem consegue maravilhar- se com as palavras. De repente, ela se deu conta de que aquele passarinho pequeno, frágil, delicado, que se alimenta do néctar e que faz um suave zumbido enquanto bate rapidamente as asas, é também um meigo e gracioso, amante das flores, e vem, zumbindo, beijá-las com suavidade e amor. Ela, finalmente, aprendeu o que qualquer criança pequena no Brasil sabe: ela descobriu que o beija-flor sabe beijar.