Um dia desses, cheguei à conclusão de que quase não tive o hábito de cultuar celebridades. Quase. Claro que existiram mulheres que admiro por terem feito coisas memoráveis, por terem sido pessoas incríveis ou porque causaram turbulência na sua época: sem elas, não seríamos o que somos. Clarice Lispector, Nise da Silveira, Hilda Hilst, Angela Davis, Simone de Beauvoir, Jane Goodall, Virginia Woolf, e a lista segue. Mas há uma personalidade que recebeu minha simpatia e admiração desde quando eu era criança: Diana, Princesa de Gales.
Nem sei explicar muito bem. Quando ela apareceu para a realeza britânica e para o mundo, eu tinha apenas 12 anos. As recordações que sobrevivem falam de apatia ou desinteresse pela família real britânica; na memória, está uma Inglaterra que tinha um fulgor muito maior do que tem hoje, um resplendor ao qual os Estados Unidos conseguiram fazer sombra desde então. Reis e rainhas, castelos, aristocracia, gente esquisita, narizes empinados: que graça isso pode ter? Então apareceu Diana Frances Spencer. Quase menina, bela, cabelos louros e olhos azulíssimos. Alta, discreta e elegante, porte de modelo com leveza de bailarina. Uma mistura de simpatia e timidez. E o mundo se apaixona.
Ela se destacaria onde quer que estivesse. Que dirá, então, no meio daquela gente, diga-se a verdade, não muito bonita da realeza de Londres. Ela era linda. Mas não era uma beleza de estátua, fria, impossível. Movia-se com simplicidade e ingenuidade. Falava baixo, sorriso tímido. O casamento a transforma em “Sua Alteza Real, a Princesa de Gales”. Logo vieram dois belos príncipes, a imagem de uma mãe dedicada, gente como a gente, como qualquer mãe dedicada e apaixonada pelos filhos. Eventualmente, todas as mulheres do planeta a copiavam, a invejavam e a admiravam.
Depois vieram as histórias de traição: um príncipe sem graça traindo a bela esposa e mãe amorosa. Indignação. Os jornais a perseguiam. Os fotógrafos a perseguiam. Os paparazzi a perseguiam. O mundo vivia na sua cola, à espreita daquela que seria, até hoje, a mulher mais fotografada do planeta. Da menina que vira princesa vivendo um conto de fadas, passa a ser a mulher que foi trocada por outra que, novamente digo a verdade, nem bonita era. O mundo se derrete de empatia e solidariedade por ela.
Divorciada, Diana perde o título de “Sua Alteza Real”, mas continua sendo a princesa do povo, nada a ver com aquela gente chata e careta de sangue azul: ela era a princesa de toda a gente. No dia 31 de agosto de 1997, a tevê grita notícias de Paris. Diana partiu! O mundo estremeceu. Uma montanha de flores é colocada nos portões do Palácio de Kensington. Até as almas mais frias derretem-se diante da tristeza dos príncipes meninos, que perdem a pessoa mais importante de suas vidas. O mundo não pode esquecê-la.
Também não me esqueço do Imperialismo: potências europeias dividindo e apropriando-se dos continentes, em ganância, como se fossem pizza de calabresa. A Inglaterra, a maior delas. Mas a princesa era de outra qualidade, uma joia humana e fraterna no meio de uma realeza caduca. Não vou investigar de onde vieram as pedras e o ouro de suas tiaras, qual fortuna ancestral pagou por seus vestidos. Mas também não vou esquecer aquela que, mesmo no topo do mundo, encontrou tempo para visitar pacientes com AIDS e fazer campanha pela proibição das minas terrestres. E sempre com um sorriso. E que sorriso!