Manual do caipira

Dezembro 11, 2025

Manual do caipira

Dezembro 11, 2025

Manual do caipira

Manual do caipira

Tive a imensa sorte e privilégio de crescer no meio do mato. Está bem, não era exatamente mato, era uma fazenda. Uma fazenda estatal no interior de São Paulo, perto de Jaú. Só de pensar que a maravilhosa poeta Hilda Hilst nasceu na região me dá um arrepio. Se na escola aprendi a tomar gosto pela literatura, no mato aprendi a ser caipira, fardo que carrego com muito orgulho. 

A maioria das pessoas que conheço não teve a infância que eu tive. Elas cresceram em cidades, no meio de prédios, automóveis e viadutos, naquela vida agitada e barulhenta. Cresci subindo em árvore, correndo em estrada de terra e com muitos bichos: gato, cachorro, coelho, cabrito, pavão… No mato tudo funciona mais devagar. Não temos tanta preocupação com a aparência, os compromissos e a etiqueta. O que importa é cuidar da criação logo cedo, regar a horta, saber a hora certa de colher o milho e plantar o feijão, como espalhar o café no terreiro, torrar e moer, colher algodão etc. Muitos desses conhecimentos não são mais úteis para mim, moradora de Weston, Flórida, há quase 10 anos. Aqui, o único mato que temos é uma grama bem cortadinha, e os bichinhos que mais encontramos são os patos selvagens e os esquilos. Saudade mesmo, eu tenho do pomar, das vacas no pasto, dos porquinhos no chiqueiro e dos pintinhos no galinheiro. Também sinto falta de comer manga no pé, a couve verdinha na horta, ovo no galinheiro e a touceira de capim-cidreira para o chá. Caipira de verdade nem vai ao supermercado; o seu Pão-de-Açúcar ou Walmart está aí mesmo na sua porta. 

Acho muito engraçado que as pessoas que cresceram nas cidades não têm quase nenhum conhecimento da vida no campo. Não sei se sou caipira demais ou se eles simplesmente não tiveram a oportunidade de passar uma boa temporada em um sítio ou fazenda no interior. Tem coisas que a escola e a TV não ensinam; então, vou passar um pouco do meu modesto conhecimento para os citadinos.

Primeiro lugar: pato voa. Mesmo aqueles patos gordos conseguem voar. Claro, eles não voam com a altivez de uma águia ou com a agilidade de um falcão. Eles são gordos, então  voam como patos gordos (né?), fazendo ploft, ploft com as asas. Eles também não andam muito rápido, não correm como os coelhos e os cabritos, eles são gordos (lembra?); e caminham como bichos gordos, fazendo ploft, ploft… Mas nadar eles nadam bem, a única coisa que salva a dignidade motora desses bichos. Uma dica importante: dá para diferenciar o ovo de galinha e o ovo de pata. Esse aqui é bem maior e a casca é bem mais dura. Recomendo tomar muito cuidado ao se aproximar do ninho, já tive que sair correndo de uma mãe enfurecida. Para defender sua ninhada, a pata gorda é capaz de ser bem ligeirinha. Não sei muito bem a utilidade dessa informação para o meu leitor, ele não parece gostar de ovo de pata.

Algumas coisas me parecem tão óbvias que tenho receio de comentar, mas como não tenho nada para fazer, vamos lá. Vegetais que crescem embaixo da terra: cenoura, batata, beterraba, mandioca, mandioquinha, batata-doce e amendoim. Vegetais que crescem sobre a terra: abóbora, abobrinha, jiló, folhas como salsinha, cebolinha, couve, alface, almeirão. O chuchu é uma espécie de trepadeira, então cresce muito bem em uma cerca, assim como o maracujá e o quiabo. Aliás, tem que tomar cuidado quando for colher o quiabo: sempre escolha os menores. Quando crescem muito ficam duros e não dá para cozinhar. Essa informação me parece irrelevante, porque meus leitores não têm cara de que costumam colher quiabo na horta. Continuemos.

As pessoas da cidade têm receio de comer uma fruta depois que foi bicada por um passarinho. Pensa bem: quem entende mais de goiaba, laranja ou manga: você ou o passarinho? Aposto uma enxada novinha que o passarinho sabe muito bem qual é a fruta mais doce, então é para lá que ele vai. É só cortar com uma faca onde ele bicou (nós temos dignidade) e comer o resto, qualquer caipira faz isso e a gente continua vivo, bem vivo. 

Mais uma pelota de sabedoria que vale mais do que milho na espiga: quando colher os ovos sempre deixe um no ninho; geralmente fazemos uma marca com lápis, para não confundir. Esse ovo chamamos de “indez”, para a galinha reconhecer onde está o seu ninho e continuar botando os ovos no mesmo lugar. Novamente essa informação não é muito útil, pois meus leitores não têm jeito de que vão buscar ovo de galinha no ninho.

 Finalmente, uma informação importante: nunca, jamais, em hipótese alguma, alimente um animal selvagem perto da sua casa, a não ser que o queira como vizinho. Ele vai perder o medo natural que tem das pessoas e vai voltar por mais comida, e ainda pode trazer os amigos ou parentes. Já soube de pessoas que alimentaram alligators no seu quintal, aqui em Weston, jogando carne da churrasqueira para o bicho comer. Se você quer um animal desse na sua porta pode continuar alimentando-o, mas não acho uma boa ideia, principalmente porque meu leitor não tem cara de possuir um facão ou espingarda para se defender do lagartão. Poderia continuar derramando minha refinada expertisecaipira, mas lembrei que tenho polenta cozinhando no tacho. Pena que não é fogão a lenha.

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