Era uma senhora que vivia sozinha. Uma boa velhinha, com cabelos de algodão doce e sorriso de gelatina. Casa pequena com quintal; quintal com pé de manga e goiaba. E um cachorro. Viúva há muitos anos, tinha um filho e este filho tinha um menino pequeno. As fotografias estão por toda a casa: na cômoda, na sala e no aparador, sobre a toalhinha de crochê. “Este é o meu netinho.” – ela mostrava, orgulhosa, para as amigas.
O filho era estudado, e só ela sabia a economia e dificuldade para aquele diploma nascer. Agora, ele trabalha com terno e gravata, para o mais nobre orgulho da mãe. E este filho estava casado com uma doutora, e esta doutora tinha uma mãe, a outra avó. E esta avó, a outra, presenteava o menino com tudo que se pode imaginar. Carrinho que acende as luzes, brinquedo de pilha, robôs que andam, joguinhos que ela nem sabia o nome. E a bicicleta? Foi a avó que deu, o menino contou. Mas ele não podia andar nunca, Margarida pensava. Um dia chove, outro dia faz muito sol. Quando podia andar de bicicleta, então? Ela pensava, mas não dizia nada. “Já pensou, ele discutir com a esposa, por minha causa?!”, confidenciava para as amigas.
Poucas vezes o filho a visitava; e menos ainda ele a visitava com seu filho. E explicava: um domingo ele foi para o circo com a outra avó. No outro ele foi para o parque e assim sempre. Ela nunca via o menino, e sempre que o via, ele estava cercado, vigiado, observado pela mãe: “Isso não pode comer, não suje as mãos, vá pentear o cabelo, cuidado com o cachorro!” Ela dizia para as amigas: “Ainda mais o Sansão, imagine, que nunca comeu uma mosca!”. E nunca ficavam para comer. Um dia era reserva no restaurante, no outro a nora estava de dieta, tinha dia que nem motivo tinha. E ainda tinha a outra avó, a moderna, de cabelo pintado e roupa estampada. A avó que dirigia carro e comprava brinquedo. “Ela deve ter cartão de crédito”, pensava. E o que ela tinha? Uma casa velha, um quintal e um cachorro. “A outra avó mora em apartamento”, ela explicava para a vizinha.
Mas, um certo dia, a babá ficou doente, a mãe tinha que trabalhar e a outra avó tinha horário marcado com alguma coisa. Pediram para cuidar do menino. “Este é o seu almoço, ele come às doze em ponto”, a nora avisou. O menino brincou a manhã inteira no quintal, embaixo da goiabeira e ainda andou de bicicleta na calçada. “Espero que ele não conte para a mãe”, Margarida pensou. Na hora da mesa, o menino virou a cara para o seu prato: era alguma coisa integral misturada com cenoura. “Que idéia, dar uma comida sem graça como essa para o menino”, ela pensou. E foi para o fogão, acendou uma boca com um fósforo, e colocou a sua velha frigideira amassada para esquentar com um pouquinho de óleo da lata. Abriu a geladeira, pegou um ovo, quebrou a casca na quina da pia e derramou seu conteúdo aguado bem no centro da frigideira. Com uma colher seca, para não espirrar o óleo quente, começou a recolher gordura e derramar com cuidado para não estourar a pele que envolve a gema. “O que está fazendo, vó?” “Venha ver” e colocou um banquinho para ele ficar de pé, assistindo. Depois que a clara estava firme, mas ainda branquinha, e a gema firme por fora e molinha por dentro, ela jogou um pouquinho de sal e colocou o ovo sobre uma tigelinha com um pouquinho de arroz branco quentinho da panela. Com uma colherzinha ela ensinou o menino a furar a gema. “Agora você mistura com o arroz”. O menino comeu. Tudo. E depois foi brincar com o cachorro. Quando o pai veio buscá-lo ele correu para a avó e deu um beijo. “Tchau, vó!”. No domingo vieram visitá-la. “Ele disse que queria vir para a casa da avó que fez um ovo frito para ele”, o filho explicou. A mãe não devia ter gostado, ela pensou, “Imagina, dar fritura para o menino!”. Mas não disseram nada. Ainda bem…
No outro sábado o menino disse que queria ir para a casa da Vó Margarida. O pai tinha futebol e a mãe esteticista. Ficou a tarde inteira, tomou groselha e comeu pipoca sentado na calçadinha que dava para o quintal. Jogava no chão para o cachorro comer. “Olha, vó, o Sansão gosta de pipoca”. Ela ria. Quando foi embora, ela disse baixinho no seu ouvido: “Domingo que vem eu faço bolinho de chuva para você”. “O que é isso?” ele perguntou. Ela ria e ria.
Quando levaram o menino, no outro sábado, a nora avisou: “Ele já almoçou”. Margarida entendeu o recado: “Não dê nada que não seja natural e saudável para o menino comer”, mas, mesmo assim, fritou os bolinhos prometidos. Ele ficava vendo tudo de cima do banquinho, curioso, meio longe por causa do óleo quente. Depois de fritos, ele comia um e levava outro para o cachorro. “Olha, vó, o Sansão também come ‘bolinha’ de chuva!”. Ela ria. Agora era ela que assistia as travessuras do neto sentada no banquinho. Depois que o pai veio buscá-lo ela foi contar para a vizinha, feliz: “Precisava ver quanto ele comeu!”.
E assim se passavam as semanas. No sábado era sopa de feijão com batata, no domingo era massa com molho de tomate. Ele gostava de saber o nome de cada macarrão: o parafuso, o borboleta, o espaguete, o padre-nosso… E o restinho da comida que sobrava no prato ele levava para Sansão. “Olha, vó, ele tá comendo pafuso!”. Ela ria e ria. O filho e a nora já ficavam para almoçar, mas agora era por insistência do menino. E Margarida fazia doce de leite, bolo, canjica, mingau, tudo o que o neto gostava. A nora olhava repreensiva e depois ia reclamar com o marido. “Mas ele gosta de comer na casa da avó, que remédio!”. Finalmente, num sábado, o menino pediu ovo frito e Margarida foi para o fogão. A nora não se conteve e irritada, soltou: “Eu não quero que dê fritura para o meu filho!”. O marido assustou-se, ficou pálido, mas calado. Ela, com a mesma leveza da flor que leva o seu nome, quebrou a casca e começou a derramar o óleo quente, lentamente, sobre a gema. Depois de alguns instantes e ainda observando, calmamente, a clara ficar branca e endurecer, respondeu: “Na minha casa o meu neto come o que eu quiser”. A nora levantou- se indignada, mas apenas um olhar frio do marido e ela sentou-se calada. A velhinha fritou o ovo e o neto comeu com arroz, feijão e tomate picadinho. Nunca mais os pais falaram sobre o assunto, e o menino continuou na casa da avó favorita todos os fins de semana e comendo da velha panela amassada. Ficou entendido que pior que gordura ou açúcar era ficar sem o amor da avó, porque carinho também se come com colher.