Nós e Eles

Janeiro 22, 2026

Nós e Eles

Janeiro 22, 2026

Imagino o que estariam pensando de nós. Viveram incontáveis gerações nas florestas, nas montanhas, nas tundras e nas savanas. Passavam o dia buscando raízes, sementes e frutas para mastigar e conseguir algum nutriente que matasse a fome.

Alimentavam-se também de insetos e, quando tinham sorte, conseguiam caçar um animal,

que, por muito tempo, era comido cru. Com a invenção do fogo, alimentar-se ficou um pouco mais interessante. O grupo se reunia em torno da fogueira, compartilhando a caça, olhando as estrelas e conversando. Famílias reunidas, trocando experiências e fortalecendo os vínculos.

Imagino algum deles dizendo algo assim: “Seria tão bom se tivéssemos uma caverna

confortável, com comida à nossa disposição, uma fogueira acesa o tempo todo, que a chuva não apagasse… Uma gruta que fosse fresca durante o dia e nos abrigasse do frio durante a

noite, um lugar macio para dormir, água fresca à disposição, paredes para nos proteger das feras e dos mosquitos… Chamaríamos esse lugar de casa e…”. Algum membro da tribo o

interromperia: “Lá vai ele, sonhando outra vez… Isso nunca vai acontecer! Coma a sua perna de mamute e fique quieto!”

E não é que aconteceu? Aqui estamos nós, em casas e apartamentos modernos e confortáveis. As torneiras fornecem água fresca e limpa (quando pagamos a conta, é claro!). A geladeira mantém nossa comida fresca, e o fogão é uma minifogueira automática. Uma casa que nos abriga das feras e dos inimigos, nos protege do frio no inverno, e o ar-

condicionado nos mantém confortáveis no verão. Sofás, colchões, travesseiros, cobertores, almofadas… Os neandertais e os australopitecos jamais imaginaram esse luxo, essa opulência.

Imagino algum antepassado ilustre nos dando a honra de uma visita.

— Então, essa é a sua caverninha? — olha em volta, com um pouco de desdém.

-Sim, moro aqui com minha família.
-Toda a tribo cabe aqui?
-Não, apenas meu marido e meus dois filhos.

-E os outros, onde estão? Os familiares, os amigos, os companheiros de caçada…

-Então, eles moram em outras casas, em outras cidades, mas conversamos de vez em quando.

-Sei… E por que não estão em volta dessa sua “fogueirinha”, contando as histórias dos ancestrais e as aventuras que viveram durante todo o dia?

Pensei em explicar que agora cada um tem uma “caverninha” particular e só costuma sair quando acaba a pilha do videogame ou cai o Wi-Fi, mas ele não iria entender.

-Como fazem para ver as estrelas e ouvir o canto dos pássaros?

-Então, de vez em quando vamos passear em um parque, mas…

-Sei, sei — interrompe. — E quando saem para caçar, correr nas campinas, sentir o vento e os raios do sol no rosto, conquistar o alimento com valentia e coragem — a luta milenar entre o proto-homem e o animal selvagem — e depois regozijar-se, compartilhar a refeição junto aos seus, enquanto descansam sobre a relva verde?

Tudo bem, não acho que meu parente hominídeo tivesse uma linguagem tão sofisticada, mas, mesmo assim, não tive muito o que responder.

-Então, hoje foi dia de pizza — mostrei aquele círculo achatado, coberto

com queijo e molho de tomate. Expliquei que aquilo também era alimento. Vi um leve sorriso no canto da boca. Não sei se era desconfiança, escárnio ou pena.

Consegui que ficasse conosco por três dias. Custou um pouco para que se acostumasse a dormir na cama e tive que esconder a calopsita, pois percebi uma certa

intenção de sua parte. O cabelo comprido e a barba não causaram estranhamento na

vizinhança, mas ele não quis tirar a capa de pele de bisão por nada deste mundo. Ofereci um jeans da Levi’s, camiseta branca da Hollister, cueca da Calvin Klein e tênis Adidas. Ofendeu- se.

Homo sapiens que é homo sapiens de verdade não usa isso. Eu seria

ridicularizado na minha tribo! Posso não estar no Paleolítico, mas ainda tenho dignidade — tive que dar um pouco de razão.

No quarto dia, acordou antes do sol nascer e disse que ia pescar trutas nas lagoas geladas das planícies da Sibéria, na companhia dos ursos e das renas — ou qualquer

coisa parecida. Só senti falta de um espeto da churrasqueira e notei que o cachorro do vizinho andava mais quieto que o normal. Nunca mais voltou.