O Feitiço do Tempo

De vez em quando, não me deixo convencer por nenhum lançamento da NetFlix e decido por algum filme antiguinho, mas bacana. Ontem assisti ao filme “O Feitiço do Tempo”, com o superdivertido Bill Murray e a superlinda Andie MacDowell. Para quem ainda não viu (spoiler alert, cuidado!), é a história de um repórter mal-humorado que viaja com sua equipe para uma cidade sem graça, em um dia frio de inverno, para fazer — contrariado — uma reportagem enfadonha. Terminado o trabalho, ele não pode ir embora, porque a neve bloqueou as estradas e tem que ficar mais uma noite naquele lugar monótono. Quando acorda, está novamente vivendo o dia anterior (esse é o feitiço do tempo): as mesmas coisas chatas, as mesmas pessoas entediantes, o mesmo mal humor, e esse dia se repete continuamente. Para seu desespero, nada que ele faz é capaz de mudar esse estranho destino: viver o mesmo dia sem graça, em uma cidade sem graça, no meio de pessoas sem graça, fazendo uma coisa que não gosta. Ei, espera aí! Será que esse também não parece ser o destino de quase todo mundo? 

Quando vemos a vida e o mundo com uma lente negativa, não conseguimos tirar prazer ou alegria de nosso dia a dia. É muito fácil olhar para as coisas de que não gostamos, tudo o que é ruim “salta aos nossos olhos”. Para encontrar o positivo, o belo ou o agradável, é preciso treino, paciência e vontade; podemos ver e funcionar em uma frequência mais otimista ou amorosa. Em resumo, é preciso treino e disposição para olhar o lado bom da vida. Se não pudermos ver as coisas agradáveis da vida, vamos achar o mundo sem graça e que viver não vale a pena. É claro que podemos ter dias realmente ruins, como também dias maravilhosos; porém, na grande maioria das vezes, são apenas dias “mais ou menos”. 

Apesar de nada acontecer de extraordinário na maioria dos nossos dias, sempre podemos encontrar algo de bom, belo ou prazeroso para nos alegrar todos os dias. Coisas que nos trazem felicidade apenas por estarmos vivos ou porque viver realmente vale a pena. No caso do nosso jornalista, ele conseguiu vencer o feitiço quando começou a interagir com as pessoas da cidade com bom humor, quando mostrou interesse genuíno pelos outros, quando fez coisas boas para os outros e permitiu que fizessem coisas boas e agradáveis para ele. Ou seja, quando permitiu dar e receber atenção, amorosidade (adoro essa palavra), simpatia e alegria. E, ainda por cima, conquistou o coração da mocinha. Essa é a ideia por trás da teoria do mindset, da Psicologia Positiva. Inclusive, a psicóloga Carol S. Dweck comenta esse filme no livro Mindset: A nova psicologia do sucesso. Aliás, recomendo esse livro para todas as pessoas que vivem mais ou menos presas nesse modo de pensar, mas acreditam que podem aprender a olhar a vida de outras maneiras. 

Por muito tempo eu também estive enfeitiçada pela negatividade. Quando algo ruim ou entediante acontecia, eu fechava os olhos para perceber as coisas boas que também estavam acontecendo, mas desenvolvi alguns truques para não me deixar levar pela corrente. O trabalho é chato? Pode ser, mas fiquei feliz quando consegui o emprego. Não tenho tudo o que quero? Mas tudo o que tenho já foi desejado por mim no passado. A segunda-feira está monótona? Ainda guardo boas memórias do fim de semana para me animar. Estou muito cansada? Estou realizando tarefas que escolhi e são importantes para alcançar algum objetivo; quando terminar, poderei me dedicar a coisas mais interessantes ou mais divertidas. São pensamentos assim que nos motivam. Você acha difícil viver assim? Difícil é viver em um mundo negativo…

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Escritora experimental, psicóloga por formação e professora por opção. Moro no sul da Flórida há quinze anos e vivi sete anos em Santiago do Chile.

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