Simplicidade

Maio 21, 2026

Simplicidade

Maio 21, 2026

Acredito que estou vivendo aquele momento da vida em que temos o orgulho e o direito de acumular e ostentar algumas excentricidades. Provavelmente porque, hoje em dia, não há muita gente normal andando solta por aí, principalmente da minha idade. Uma das minhas esquisitices é a paixão por sabonetes perfumados, aqueles que fazem bastante espuma e nos entregam aquela sensação de que somos estrelas de cinema, pelo menos enquanto dura o banho. Tenho alguns em estoque: rosa, lavanda, baunilha e até abacaxi! A propósito, um dos meus favoritos: parece que estou dentro de uma jarra de Ki-suco.

Quando eu era criança, em meados dos anos 70 (caso alguém queira descobrir minha idade, é só usar a matemática), sabonetes eram uma forma de presentear muito comum nas festinhas de aniversário de meninas. Naquela época, e com o dinheiro que tínhamos, as festinhas eram improvisadas e modestas. Minha mãe fazia um bolo, meu pai comprava algumas garrafas de refrigerante, e alguns sanduíches eram preparados. Meu irmão mais velho era encarregado de cuidar da música e colocar os discos para tocar no moderníssimo aparelho três em um. Também não havia convite de papel: saíamos pela vizinhança chamando os amiguinhos, “Hoje à tarde tem festinha na minha casa”, e pronto, a festa estava montada. 

As meninas vinham de vestido, e os meninos, tímidos como todos os meninos, vinham de camiseta nova e cabelo penteado. A maioria das mães do bairro não tinha carro e nem dinheiro para comprar um presente para a aniversariante no centro da cidade, então tinham que improvisar qualquer coisa que tivessem em casa e de que menina gostasse. Aí entrava o sabonete, que vinha embrulhadinho com carinho, provavelmente com papel reciclado de outros aniversários.

É claro que eu não gostava de ganhar sabonete! Um dos presentes de que mais gostei foi uma bolsinha de gatinho, bem pequenina, que me acompanhou por muito tempo. Mas hoje penso na simplicidade daqueles tempos, quando as condições eram precárias para quase todo mundo, e a educação ditava que não se ia a uma festa de aniversário de mãos vazias. Hoje, os tempos mudaram. As festas são eventos importantes, têm convite antecipado, buffet, fotógrafo, decoração, e muito dinheiro e tempo são utilizados para fazer uma celebração especial. Mas ainda sinto falta da simplicidade. Depois de tanto tempo, muitas lembranças boas ficaram. Depois da bolsa de gatinho, o sabonete ainda é um presente que não consigo esquecer, talvez porque eu ainda adore banho perfumado, ou porque me faça lembrar que o melhor da vida são os momentos mais singelos, e os detalhes mais simples são também os mais belos.