Meu primeiro bebê se chama Luís, tem 34 anos e é meu sobrinho. Ele nasceu muito antes dos meus filhos, quando eu ainda era adolescente, e foi amor à primeira vista. Amor entre irmãos é algo complexo, uma mistura de afeto, contrariedade, ciúme e ranhetice. Mas amor pelo sobrinho não tem ambiguidade. É o puro e simples bem-querer, é gostar do pequeno desde sempre, e continuar gostando mais e mais, quase como um filho. “Quase” porque tia, assim como os avós, não tem preocupação nenhuma com o seu futuro, não tem compromisso com seu bem-estar e sua educação. Estamos ali só para agradar, fazer as vontades, deseducar, dar presente e levar para passear. E tudo a gente acha graça e comemora: o primeiro aniversário, as primeiras palavras, os primeiros passos. Ser tia é muito legal.
Quando nascemos e somos apresentados aos nossos irmãos, ainda não estamos preparados para uma relação afetiva genuína com eles. Geralmente, a sua existência apenas é percebida quando tiram nossa mamadeira ou chupeta, e mesmo assim nem damos muita bola para aqueles pequenos inconvenientes. A complicação começa mais tarde.
Os irmãos disputam o amor e a atenção dos pais com a gente. Disputam espaço no sofá e roubam a nossa pipoca e balas. Temos que dividir a mesada com eles. Pegam nossos brinquedos sem permissão e rabiscam nosso caderno. Aprender a gostar do irmão menor é uma tarefa ainda mais difícil; se éramos filhos únicos antes de sua chegada, chega a ser traumático. Estávamos acostumados a ser os soberanos no reino familiar, e de repente chega o embrulhinho da maternidade. Perdemos o trono e a primazia. O convívio diário ajuda a construir a relação amorosa, mas não é sem atropelos e sem beliscões. Aprender a gostar do irmão leva tempo. E há irmãos que nunca conseguem. Lembra-se da história de Abel e Caim, Esaú e Jacó, e do pobre José que foi vendido como escravo pelos irmãos e foi parar no Egito? Pois é…
Mas sobrinho é diferente. Não tem mais disputa. Você é bem grandinho para pequenas desavenças, pode gostar do embrulhinho desde o primeiro momento, porque sim, sem motivos e sem cautela. Parece que aquele afeto contraditório que tem pelo irmão ou irmã é filtrado e canalizado para o filho dele ou dela, sem ambiguidades e sem desavenças. Quando acontece de virar tio ou tia antes de ser pai ou mãe, o sobrinho é como um aperitivo, o primeiro tira-gosto para a aventura da paternidade ou maternidade. “Ah! Então é assim que funciona?!” E aprendemos como trocar fraldas, fazer a papinha, ensinar e paparicar. Quando recebemos o nosso próprio pacotinho, não somos pais de primeira viagem: já rodamos algumas estradas e acumulamos um pouco de bagagem.
Depois virão outros sobrinhos e sobrinhas, se você tiver sorte. Ainda tem a possibilidade de tornar-se a tia favorita da garotada, ou uma tia mais ou menos, mas ainda faz parte do círculo de parentes próximos. Somos a terceira tentativa para conseguirem os brinquedos mais caros no Natal (eles costumam testar os pais e avós antes da gente) e uma escolha frequente para madrinha ou padrinho de casamento. Nesse caso é sua responsabilidade dar os presentes mais caros, também faz parte.
É o primeiro grande amor de verdade, porque é um amor sem intenções. O sobrinho pequeno não faz nada por nós, não leva a gente para passear ou nos dá presentes. Não é como amor de namorado ou namorada, pois deles esperamos muitas coisas. Apenas quando os sobrinhos são adultos, esperamos que venham nos visitar na casa de repouso e tragam uma garrafa de vodka escondida. Mas, antes disso, os sobrinhos não entregam nada para nós, assim como os filhos. Apenas a certeza de que o amor e os laços de família ainda existem e valem a pena. E muito.